UM VETO DE MUITOS RISCOS - JORGE BASTOS MORENO

23/07/2016 20:30
UM VETO DE MUITOS RISCOS - JORGE BASTOS MORENO
O Globo - 23/07
 
São históricos os desencontros entre Michel Temer e Renan Calheiros. É sempre assim: um curto período de lua de mel e um inverno de belicismo.
 
Neste momento, a relação está em ponto morto, à espera da decisão de Temer sobre se nomeia ou não um apadrinhado de Renan, o deputado Marx Beltrão (PMDB-AL), réu no STF, para o Ministério do Turismo. Dos três ministros mais influentes junto ao presidente em exercício, Geddel Vieira Lima e Moreira Franco acham que não é hora de o governo criar mais um contencioso com o presidente do Senado, embora também torçam o nariz para Beltrão. Já Eliseu Padilha, como o próprio Temer, acha que essa nomeação é ruim para a imagem do Planalto.
 
Se prevalecer, como parece, o veto a Beltrão, a quase um mês da votação do impeachment, Temer sabe que até lá vai viver em um verdadeiro inferno de ameaças e chantagens. É essa briga que o governo avalia se, a esta altura, vale ou não comprar.
 
Pelo celular
Temer tem dispensado a ajuda de secretárias e assessores e, do seu próprio celular, tem ligado para as pessoas. E revela que o interlocutor às vezes demora até 30 segundos ou mais para entender que está falando com o presidente da República:
 
— Eu costumo me identificar “É o Michel!”. A pessoa não entende, aí eu digo “É o Temer! Michel Temer!”.
 
Só aí cai a ficha.
 
Bocão
Dia desses, inclusive, Temer ligou para Heráclito Fortes, que, amuado com o governo por causa da disputa da Câmara, achava que o presidente havia rompido com ele. Dentro do supermercado, ao perceber quem estava do outro lado da linha, Fortes, deixando cair a garrafa de vinho que tinha nas mãos, gritou, assustando as pessoas:
 
“Preeeesidenteeeee!!!”.
 
Retorno
Nas tratativas para fechar a delação premiada, a Odebrecht prometeu reabrir um escândalo que achou que tivesse enterrado nos idos dos anos 2000.
 
Os investigadores exigiram que os executivos revelem detalhes do caso Infraero, que mirava fraudes em obras de aeroportos. Mas a operação, à época, foi melada, o que frustrou investigadores.
 
Como uma das condições para fechar o acordo, os executivos estão dispostos a colaborar com a Justiça e prometem abrir o bico sobre o assunto.
 
O caso Infraero foi alvo da Operação Caixa-Preta, que começou em 2007 e apontou desvios em obras de aeroportos como Congonhas (SP), Guarulhos (SP), Brasília e outros, envolvendo construtoras como Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa etc.
 
Os inquéritos ainda estão abertos.
 
Parece, mas não é
O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, principalmente depois que renovou o convite para o delegado Leandro Daiello permanecer no comando da Polícia Federal, ganhou o apoio da maioria da corporação.
 
Chave do sucesso: Moraes fala a linguagem da polícia. Embora tivesse se enrolado um pouco na coletiva sobre a prisão dos suspeitos de terrorismo.
 
Homem bom
Pergunta recorrente nos corredores do Itamaraty:
 
Por que o ministro Serra não trocou ainda o embaixador do Brasil na Venezuela?
 
É muito ligado ao PT e responde a questionamentos internos.
 
Respondo, mesmo sem ter procuração, pelo nobre chanceler, totalmente avesso à política de caça às bruxas: o cara deve ser muito competente, uai!
 
Adoçando a boca
Convidado para o primeiro jantar em homenagem ao filho presidente da Câmara, na Gávea Pequena, Cesar Maia alegou ao anfitrião Eduardo Paes que não poderia ir “por causa da coluna”.
 
O prefeito fez questão de justificar essa sentida ausência em discurso, acrescentando: — Eu fingi que acreditei! O incrédulo alcaide queimou a língua no dia seguinte, ao ler a coluna do vereador na internet.
 
Era cacetada pura, de cabo a rabo, na sua gestão.
 
Foco
Na delação de Gim Argello, o foco é justamente as negociatas que envolvem o trâmite das medidas provisórias.
 
Por falar nelas, a PF está investigando a polêmica MP dos Portos. Lembram?