Vinicius Torres Freire: Crimes e castigos do capital

01/12/2015 12:30

- Folha de S. Paulo

Pelo menos 11 das 20 maiores empresas brasileiras foram envolvidas ou avariadas no desenvolvimentismo "porta de cadeia" da década passada. Isto é, pela parceria público-privada que juntou intervenção estatal equivocada ou corrupta com bandidagem empresarial, em petrolão etc.

 

Pelo menos dois grandes setores, construção e petróleo, foram devastados por ação bandida (grandes empreiteiras), mas não apenas. O investimento do governo federal "em obras" caiu quase 40% ante 2015. Caiu porque a dívida pública ficou grande demais e cresce sem limite. Ficou excessivamente grande em boa medida porque os governos petistas, Dilma Rousseff em particular, estatizaram parte do crédito, comprando fatias de mercado com endividamento público a fim de financiar o BNDES e, assim, alguns oligopólios.

 

O nacional-empresismo de Dilma Rousseff não se desmilinguiu apenas sob o peso da roubança, pública ou privada. Nem teve como consequência apenas desgraças em cascata –a ruína de Petrobras e empreiteiras arrebentou construtoras menores, fornecedores, causou o grosso das demissões de trabalhadores e explodiu a economia de regiões inteiras, dos interiores do Rio de Janeiro ao do Rio Grande do Norte, passando pelo etanol paulista etc.

 

A investigação policial amontoa evidências berrantes de um sistema de ineficiência sobreposto à ineficiência basal do Brasil. Pegaram os suspeitos de sempre, o superfaturamento, o sobrepreço (de cartéis e oligopólios) e as barreiras criminosas à entrada de potenciais competidores. Há mais.

 

Como seria previsível por estudos econômicos já velhinhos, há desperdício enorme de recursos produtivos, dedicados à atividade ineficiente e perturbadora de comprar partes dos agentes do Estado. Para piorar, o conluio do delírio desenvolvimentista com o capital bucaneiro, melhor corsário, leva a uma alocação de capital distorcida.

 

Isto é, para ser curto e grosso, investe-se em bobagem, pois o "lucro" está garantido, dos estádios da Copa a fusões e aquisições de "campeãs nacionais" (empresas agraciadas com empréstimos baratos do BNDES, bancados por dívida cara), em refinarias e petroquímicas que darão retorno pífio, nenhum ou em apenas roubo, o sonho do Brasil grande que produziu monstros.

 

Quer dizer, temos uma fantasia de economia de mercado, com todos os seus efeitos perversos e outros que criamos, mas sem o benefício básico de concorrência e inovação. Uma crítica conservadora como essa é radical no Brasil.

 

O BNDES dos anos FHC financiou a privatização e a reorganização da parceria Estado e grande empresa. Nos anos petistas, financiou a criação ou reorganização de conglomerados (teles, eletricidade, carnes e alimentos, petroquímica, mineração, siderurgia, combustíveis). O grosso das 50 maiores empresas do país foi incubado ou cevado nas entranhas estatais, subsidiado pelo cidadão, com impostos ou privação de serviços públicos básicos.

 

Talvez ainda não seja ocioso notar que dívida pública cara e desarrazoada, torrada em bobagem, enfim serve para transferir renda para os mais ricos.

 

Enfim, essa rapinagem causa ou ajuda a causar desastres regulares, uma crise mais ou menos horrenda por década, na qual o povo se esfola.