Aceita que dói menos - Por MARCELO BARRETO

18/02/2018 12:21
O GLOBO - 18/02
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Um dos grandes desafios do século XXI é aprender a lidar com tamanha liberdade de expressão
 
O mundo do futebol estava sensível esta semana. A reação ao deboche de Vinícius Jr com o chororô tomou tal proporção que mandou para fora do Estado a final da Taça Guanabara, atrasando uma reaproximação entre as diretorias de Flamengo e Botafogo. Uma crítica de Casagrande a Neymar Jr, chamando o craque de mimado no “Redação SporTV”, levou Neymar Sr a postar um textão ilustrado por uma fênix e pontuado por alusões ao problema de Casão com as drogas. E uma pergunta do repórter Júlio César Santos a D’Alessandro depois de um jogo do Inter, por incluir a expressão “joga fácil”, provocou um palavrão ao vivo na resposta: “Eu trabalho para c... Ficar falando numa mesa, atrás de um microfone, é que é fácil.”
 
As três reações têm em comum a razão do ofendido e o exagero na resposta. Cada um sabe onde o calo aperta. O torcedor do Botafogo detesta ser chamado de chorão, especialmente quando o deboche vem do Flamengo; os Neymares odeiam que se fale em mimo, expressão crítica ao comportamento do filho e aos cuidados do pai; e não só D’Alessandro, como praticamente todos os jogadores de futebol se incomodam com o que consideram desconfiança de sua ética de trabalho.
 
No mundo ideal da boleirada, o espaço para a crítica seria muito limitado: só quem sabe o que acontece dentro do campo estaria habilitado a tecer qualquer comentário. Torcedores, jornalistas e até ex-jogadores — por já estarem afastados do dia a dia — estariam, nesta ordem, desqualificados. Quando dizem “Só minha família sabe o que eu passei para chegar até aqui” nos momentos de conquista, os jogadores expressam o desejo de exercer uma atividade que só pode ser discutida no próprio ambiente do trabalho ou em casa.
 
Mas o futebol é uma arena pública. Como outros esportes, é praticado por especialistas — e cada vez há mais ciência na preparação de seus atletas: médicos, fisioterapeutas, fisiologistas, analistas de desempenho. Mas só se transformou em fenômeno de massa porque entrou no imaginário dos não especialistas. São os torcedores, com seu conhecimento limitado (e, muitas vezes, a ilusão de que o que aprenderam na várzea ou nas peladas de fim de semana os transforma em doutores da matéria), que o sustentam. E os jornalistas — que já chamei de “imperfeitos porta-vozes” num texto sobre Dunga, espécie de pioneiro na incompreensão da relação com a imprensa — fazem a ponte.
 
Em seu livro “Sapiens — Uma breve História da Humanidade”, o historiador israelense Yuval Harari defende que o homo sapiens se tornou dominante sobre as outras espécies por ter um dom em especial: a fofoca. Não é a fala em si, mas o que se faz com ela — recontar o dia, trocar experiências e impressões, expressar ideias, criar metáforas. Com essas habilidades, o ser humano aprendeu a transcender. É assim, por exemplo, que 22 homens correndo atrás de uma bola num retângulo de grama por 90 minutos passam a representar uma das maiores paixões do planeta.
 
Na era das mídias sociais, a crítica está mais presente, mais imediata — não apenas para jogadores, mas para jornalistas, políticos, músicos, youtubers, quem quer que atue numa arena pública. Um dos grandes desafios do século XXI é aprender a lidar com tamanha liberdade de expressão. Nem tudo é transcendência, ofensa à honra, desrespeito à instituição. Uma opinião pode ser só isso: a nossa opinião. Discordou? No futebol, não há espaço melhor para provar que ela está errada do que o campo.
 
 

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