Campanha eleitoral do PT soma contradições

09/08/2018 14:41

Editorial do Jornal Valor Econômico

  

Toda a estratégia eleitoral do Partido dos Trabalhadores gira em torno de Luiz Inácio Lula da Silva e sua situação de preso após condenação em segunda instância. Os malabarismos para colocá-lo nas urnas podem confundir os eleitores, ou desmoralizar o partido mesmo entre aqueles que guardam simpatia por ele. Os últimos lances dessa estratégia, perseguida a qualquer custo, ferem a lógica. O PT tem agora, por exemplo, dois candidatos a vice-presidente, e, logo, dois a presidente, sendo que um dos vices pode ser presidente, desde que o escolhido para presidente (Lula) não o seja. Por outro lado, há outro vice de reserva, do PCdoB, que espera ocupar o posto se Lula for candidato. Se não for, será vice do atual vice. Há mais combinações possíveis.

Ao vincular seu destino ao de Lula, como tem sido a história do PT, o partido atrasou o programa de alianças nacional e estadual e toda sua campanha eleitoral. É um problema, pois o PT pode não se dar conta, mas foi surrado nas eleições municipais de 2016 e de lá para cá exibe decadência nos colégios eleitorais mais densos, com exceção do Nordeste - onde, por influência de Lula, cujo prestígio eleitoral prescindia disso, aliou-se à vanguarda do atraso na região, os "golpistas" que o PT critica para manter os insatisfeitos integrados ao partido.

Na frente jurídica, na qual se tenta contestar a proibição da candidatura Lula, o PT não vai bem. Para esclarecer o "mistifório" entre "a pretensão de liberdade plena" de Lula e a discussão de seus direitos políticos "imprevistamente colocada em ribalta", seus advogados desistiram de apresentar recurso pedindo a liberdade do líder do PT, depois que o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, encaminhou-o ao plenário do Supremo. Os direitos de Lula estão na ribalta desde sua condenação e o imprevisto foi derrapada da defesa. Mas se o que se pretende é esclarecer a questão de uma vez por todas, e o mais rapidamente possível, seria importante que o STF o fizesse agora. A presunção da derrota, por parte do PT, motivou o recuo.

O mesmo veredito é esperado no Tribunal Superior Eleitoral, quando a candidatura for apresentada alguns poucos dias à frente, o que impele vãs manobras e retóricas estropiadas. "A dignidade é mais importante que a liberdade, neste momento", disse Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, candidato a vice (ou a presidente, sem Lula, ou talvez a nenhum dos cargos, com Lula). Pode-se deprender que a liberdade agora, o que o partido mais quer, seria indigna.

A estratégia jurídica, ao que parece, assume a derrota em todas as frentes, e a estratégia política almeja chegar às urnas com a foto do ex-presidente, que torna seu substituto a consubstanciação de uma "ideia", que, segundo Lula, todos podem materializar - na linguagem rude dos rivais, o "poste". Há também a contradição insolúvel entre afirmar que eleição sem Lula é fraude e o PT lançar seu candidato presidencial. É nesta dança da insensatez que se pretende esconder, enquanto se mostra, o Plano B, que a rigor não existe.

Entre uma tentativa e outra, o partido lançou na sexta-feira a íntegra de sua plataforma eleitoral, que a rigor não é sua - intitula-se "Plano Lula". Há um arco extenso de programas sociais, vários importantes, pendurados em propostas econômicas conhecidas que Lula não executou em seus anos de governo. O capítulo da previdência é um exercício de fuga ao conteúdo. O capítulo tributário é rico em aumento de impostos e pobre em corte de gastos.

Além de prometer revogar o teto de gastos e a reforma trabalhista, pregar o protagonismo dos bancos públicos e propor mais linhas de crédito com juros baixos para muitos programas, o PT recoloca o Estado como impulsionador do crescimento. Não há uma palavra sobre crise fiscal. Há mudanças para pior, como a do "imposto regulatório sobre exportações" para criar um fundo de estabilização cambial. Funcionaria em um país puramente exportador de commodities, o que não é o caso do Brasil - ainda.

O que há de pior - e que Lula não aceitava em seus dois períodos no governo - são as propostas para "refundar a democracia". O PT quer agora limitar o período dos mandatos dos membros dos tribunais superiores de Justiça, modificar leis para impedir que delações premiadas "condenem inocentes" e colocar controles sobre a mídia. O programa não faz qualquer menção à corrupção no PT.

Os contorcionismos petistas têm origem no fato de Lula não deixar sucessores. Uma campanha de outros líderes populares pela Presidência e por sua libertação talvez tivessem mais sucesso - mas eles não existem.

 


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