Cidades conflagradas - Por Marco Antonio Villa

21/01/2018 00:34
Cidades conflagradas
Marco Antonio Villa
Por Marco Antonio Villa
 
Ao longo do século 20, as grandes interpretações do Brasil acentuaram as mudanças que estavam ocorrendo, em ritmo acelerado, no País. Era o momento da migração campo-cidade. O Brasil rural estava sendo deixado para trás. E surgiam as grandes cidades. Já nos anos 1950, duas delas suplantaram um milhão de habitantes: Rio de Janeiro e São Paulo.
 
O desafio do poder público era atender as novas demandas colocadas por uma população recém-chegada às cidades. Esse é o momento histórico privilegiado do populismo, no sentido clássico. Não foi tarefa fácil ampliar o sistema educacional, a malha viária, os transportes, o atendimento médico, entre outros desafios. Era considerado um orgulho o crescimento demográfico de 3% ao ano. As cidades, quanto maiores, melhores. São Paulo comemorou, ainda nos anos 1950, ter suplantado o Rio de Janeiro, então capital federal, em população. Propagava aos quatro ventos o título de cidade que mais crescia no mundo.
 
Com a expansão industrial e do setor de serviços, as metrópoles foram se espalhando pelo território. E atraindo em grandes levas a população rural. O contínuo crescimento econômico, a demanda por força de trabalho e a melhoria da qualidade de vida foram os principais elementos que em pouco tempo levou a uma profunda mudança na distribuição da população brasileira.
 
Com a crise do final do regime militar – durante o governo Figueiredo – o poder público perdeu as condições para atender as novas necessidades impostas por uma geração que já tinha nascido nas cidades. Ou seja, se nos anos 1940-1950, a qualidade de vida urbana, por mais simples que fosse, era muito superior ao cotidiano do mundo rural, nos anos 1980 as exigências foram crescendo – assim como os problemas na educação, saúde, segurança pública, moradia. E não havia recursos suficientes – e nem uma correta política urbana, com raríssimas exceções, como Curitiba.
 
Nesses 30 anos, o que era ruim, piorou. Não vivemos em cidades. São verdadeiros acampamentos de beduínos, parodiando Euclides da Cunha. E ao invés de enfrentarmos os graves problemas urbanos, fomos nos adaptando, como Lamarcks tupiniquins. Criamos mecanismos de autodefesa frente a violência. Representamos uma vida urbana que não existe. Estamos em meio a uma guerra civil.
 
Criamos mecanismos de autodefesa frente a violência. Representamos uma vida urbana que não existe. Estamos em meio a uma guerra 
civil
 

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