Fenomenologia do Espírito - G.W.F. Hegel

21/05/2018 07:42

A Fenomenologia do Espírito representa a teoria do conhecimento de Hegel. Ela forma uma árvore do saber que vai desde o conhecimento pelos sentidos, que é o mais baixo da escala, até o saber Absoluto. A certeza sensível é a verdade mais pobre e abstrata e produz o universal. Hegel escreve sobre o tipo de certeza sensível que podemos ter. Imaginemos uma casa. Em um momento olhamos para ela, mas quando nos viramos vemos uma árvore. O aqui é uma casa, mas quando viramos o aqui se desvanece. Hegel escreve: “o puro ser permanece como essência dessa certeza sensível enquanto ela mostra em si mesma o universal como a verdade do seu objeto; mas não como imediato, e sim como algo a que a negação e a mediação são essenciais. Por isso, não é o que visamos como ser, mas é o ser com a determinação de ser a abstração ou o puro universal.” Segundo Hegel, o saber e o objeto surgem primeiro, mas o objeto deixa de ser essencial porque ele se tornou o universal. A verdade está no meu objeto, ou seja, no visar (meinem). O objeto é porque Eu sei dele. 

A certeza do objeto passa a depender do Eu. O fato de eu ver uma casa e meu amigo ver uma árvore gera uma dialética que produz o Eu universal, que é um ver simples que é mediatizado pela negação da casa e da árvore. A ciência não pode dizer a priori o que é uma coisa ou um homem, segundo Hegel. Se tenho a certeza sensível de que isto é uma árvore temos que buscar razões para esta afirmação. Se afirmo que isto é uma árvore, nesse momento esta afirmação já é passado e isto não é mais uma essência, segundo Hegel. Ele escreve: “o agora e o indicar do agora não são assim um Simples imediato e sim um movimento. Este é um Outro que é posto, ou seja, o este é suprassumido. O indicar é o movimento que exprime o que em verdade é o agora, a saber: um resultado ou uma pluralidade de agora rejuntados; e o indicar é o experimentar que o agora é um universal.”

A consciência-de-si produz uma consciência independente para a qual o ser-para-si é a essência, e outra que é a consciência dependente para a qual a essência é a vida. Uma é o senhor e outra é o escravo, segundo Hegel. O senhor, para Hegel, é a consciência para si essente que se relaciona mediatamente com o escravo por meio do ser independente. O senhor é a potência sobre esse ser, pois mostrou na luta que tal ser só vale para ele como negativo,escreve Hegel. Para ele, a verdade da consciência independente é a consciência escrava. Essa é definida por Hegel como tendo o senhor como essência.  Para ela“ a consciência independente para si essente” é a verdade, porém a verdade ainda não está nela.

O saber Absoluto é a conciliação da consciência-de-si com o espírito religioso. O saber absoluto é conceituante, e a verdade é igual à certeza. O espírito manifestando-se à consciência produz a ciência. O saber é em parte singular e também universal. O terceiro momento é a essência. Eles eliminam a oposição que resta e geram o saber do Eu, que é o saber puro e universal. A reconciliação de espírito com a própria consciência se dá em três etapas: o agir, a diferença e a cisão, e o terceiro é a universalidade ou a essência. Falta ainda a unidade do conceito, que tem a forma de ser numa figura particular da consciência. Essa figura é chamada por Hegel de anima bella, ou bela alma. Essa anima bella é a autointuição do divino.

Eric Voegelin, em um artigo chamado “Hegel: um estudo de bruxaria”, acredita que o filósofo idealista transformou a História em um processo dialético. Para Voegelin, “a metástase do amante da sabedoria em um possuidor de conhecimento requer a metástase da História na dialética da Fenomenologia.” Segundo Voegelin, o filósofo antigo e medieval sabia muito bem a distância que separava o homem de Deus. O simbolismo seria uma expressão da busca humana pela verdade. Voegelin acredita que Hegel desferiu um ataque à consciência humana por querer superar a histórica deficiência do ser humano na busca pela verdade. Ele nota que o tempo, para Santo Agostinho, começa com a criação do universo. Antes não havia tempo. Mas para Hegel, o tempo existiria antes de Deus, pois ele (Hegel) é o Alfa e o Ômega da História real, diz Voegelin. A “consciência” que Hegel tanto analisa na Fenomenologia não é tanto a do homem nem mesmo a de Deus, mas sim a do próprio Hegel, segundo Voegelin. Esse último escreve que a realidade divina do Cosmos é participada noeticamente pelo filósofo e depois articulada em uma linguagem mitopoética. O prisioneiro de Platão contempla o Sol e o mundo das ideias e volta para comunicar aos prisioneiros da caverna, e isso o ajuda a compreender a natureza humana, mas nunca o faz abolir essa condição, de acordo com Voegelin. 

No livro Anamnese, Voegelin escreveu: “a questão da arche é reformulada no sentido de que já não indaga acerca do começo do mundo, mas está preocupada com a integração do homem na ordem do ser, através da harmonia do ser humano com o nous divino. A fim de apanhar essa integração em sua singularidade, as seguintes incompreensões têm de ser evitadas: o nous não deve ser confundido nem com o ruach israelita de Deus, nem com o pneuma helenístico, cristão ou gnóstico, nem com a ratio do iluminismo, nem com o Geist de Hegel. Deve ser entendido estritamente no sentido dos pensadores helênicos como o lugar do fundamento humano de ordem está em harmonia com o fundamento do ser. Entretanto, já que Aristóteles levanta a questão desse lugar ao ligar o limite da ação humana com o nous, ele passa da imagem demiúrgica de Deus e do homem para o fundamento em si, que dá à congruência das imagens sua legitimação. Quando deixa as imagens para trás, sua pesquisa acerca da peras de ação explode a definição da natureza humana como forma, pois quando a questão é levantada acerca do limite do raio de ação do nous, isso não envolve forma, mas a forma é realizada apenas através da ação. Portanto, no seu centro a natureza humana é a abertura do saber que pergunta e da pergunta que sabe acerca do fundamento. Através dessa abertura, além de quaisquer conteúdos, imagens e modelos, a ordem flui do fundamento do ser para o ser do homem.”

A expressão “Deus está morto” aparece em Hegel décadas antes de Nietzsche. Eric Voegelin crê que Hegel não acreditava na revelação cristã e até mesmo que ele (Hegel) tornou-se Deus quando escreveu a Fenomenologia. O livro então seria uma forma do homem tornar-se Deus.

FenomenologiaDoEspirito

Fenomenologia do Espírito (Phänomenologie des Geistes) (1807) é uma das principais obras filosóficas de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. O título pode ser traduzido como Fenomenologia do Espírito ou Fenomenologia da Mente devido ao significado dual da palavra alemã Geist. O título provisório, que também apareceu na edição original, era Ciência da Experiência do Consciente. Na publicação original, era identificado como a Parte I do projectado Sistema da Ciência, do qual A Ciência da Lógicaseria a segunda parte. Uma obra menor, intitulada Filosofia do Espírito (ou Filosofia da Mente), aparece na Enciclopédia das Ciências Filosóficas, e reconta de uma maneira mais abreviada e alterada, os principais temas da Fenomenologia original.

DO QUE TRATA

Trata-se de uma complexa obra em que Hegel filosofa sobre a formação da consciência. O centro da argumentação é a relação entre o mecanismo de apreensão da realidade e a própria realidade. Segundo o autor, a consciência se expande e se modifica de acordo com os conflitos dos desejos, ou conflitos com outras consciências, derivados de experiências sociais. Para que o homem consiga buscar a verdade, deve assimilar as transformações das coisas por meio da assimilação das transformações das idéias também.

QUEM ESCREVEU

Um dos principais nomes do pensamento Ideológico alemão, Hegel (1770-1831) nasceu em Stuttgart, foi professor na Universidade de Iena após publicar Diferenças entre os Sistemas de Fichte e de Schelling e, em 1806, vê a cidade ser invadida pelo exército napoleônico. Mais tarde, se torna professor na Universidade de Berlim, onde publica grande parte de seus tratados filosóficos.

POR QUE MUDOU A HUMANIDADE

Hegel, ao conceber relação de movimento entre consciência e concepção da realidade, influenciou toda uma geração que segue a sua, de humanistas principalmente (que levam em conta diferentes realidades), tendo importância fundamental na elaboração da Declaração os Direitos Humanos, em 1948, por exemplo.

 


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