Intervenção ou ação de marketing?

18/02/2018 14:06
Intervenção ou ação de marketing?
Ao lado do deputado Rodrigo Maia e do governador Pezão, Michel Temer assina a intervenão ba segurança do Rio de Janeiro
 
Por Dr. Fenelon Rocha - Doutor em Comunicação Social
 
A grande maioria da população fluminense está aplaudindo a intervenção federal na segurança pública no Rio de Janeiro, definida na quinta-feira pelo presidente Michel Temer e já em vigor desde a sexta. Não é para menos: o caos no Rio é total, e mais escandaloso na área de segurança, onde o poder público parece ter ação muito, muito limitada. A intervenção vem como uma “ação efetiva” e se torna a esperança de mudanças substanciais na segurança.
 
Mas a intervenção não resolve o problema, já que – conforme foi dito há semanas pelo próprio ministro da Defesa, Raul Jungmann –, a criminalidade não é uma questão pontual, local. O crime, disse o ministro, se nacionalizou e até se internacionalizou, o que exige novas estratégias, nova legislação e, com as ovas leis, uma nova estruturação das forças de segurança. Nesse novo desenho, avalia Jungmann, todos (inclusive os municípios) devem ser parte, mas o governo federal deve ter o papel central – hoje esse papel cabe aos estados. 
 
Ocorre que a intervenção é pontual, animando a população local – e preocupando outros estados. No Rio sob intervenção, o governo federal passa a dar as cartas no setor de segurança. Em tudo: desde a PM à Polícia Civil, passando pelos bombeiros e sistema prisional. Em tese, é o que o ministro defendia há algumas semanas. Apesar disso, a ação federal no Rio é vista por muitos como uma ação que está mais para o marketing. Um que pensa assim é o sociólogo Michel Misse, que vem a ser coordenador do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana da UFRJ.
 
Para Misse, a ação traz ótimos efeitos políticos junto a uma população amedrontada e acuada. Mas ele tem dúvidas sobre o efeito prático. “Chamar as Forças Armadas é uma forma politicamente eficiente de produzir, no curto prazo, uma sensação de segurança na cidade”, avalia. “Mas, se o critério for o aumento da violência, tem que intervir no Ceará e em tantos outros Estados com índices mais altos que os do Rio” – disse em entrevista à Folha de S. Paulo.
 
Resumindo: a ação do Rio não tem força de política pública, como ação planejada e sequenciada no longo prazo. E, pior, não olha o todo, mas só o Rio.
 
De qualquer forma, a ação do governo federal traz a oportunidade de se discutir com alguma consistência uma política pública de segurança. Apesar da violência que toma conta do país, muito pouco se tem discutido. Em geral, os “debates” se resumem a discursos do contra ou a favor, seguido da transferência de culpa. Quando muito, limita-se à oferta de propostas no campo eminentemente policial, quando a questão da violência é muito maior.
 
A possibilidade e urgência do debate enfrentam ainda outro problema, o que truncar tudo: o ano eleitoral é farto em interesses imediatos que geram ações espetaculosas e discursos oportunistas. Em resumo, é um ano próprio para ações “marqueteiras". E isso costuma deixar para depois (ou para nunca) o enfrentamento real das questões substantivas que afligem o país.
 
Não foi por acaso que chegamos onde chegamos nessa segurança tomada pelo caos.
 
 
Fonte: www.cidadeverde.com
 
 

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