O desencanto dos petistas de raiz - Revista IstoÉ

15/04/2018 08:53
BRASIL - O desencanto dos petistas de raiz
Intelectuais e militantes éticos que fundaram o PT, e depois o deixaram – discordando da política de cooptação, corrupção e autoritarismo –, olham agora para a legenda e enxergam nela um arremedo de partido
 
Antonio Calos Prado
 
O PT é que saiu de mim”…  Assim, solta, essa frase não passa toda a força do sentido que tem. Mas vamos guardá-la, ela voltará ao final desse texto, e aí soará lógica e potente. Por enquanto, fica anônima…
 
O PT foi fundado em São Paulo no dia 10 de fevereiro de 1980, no tradicional colégio católico Sion. Era ainda o tempo obscuro da ditadura militar, mas uma “lenta, gradual e segura” abertura política, como a definia o general Golbery do Couto e Silva, já se fazia ver no horizonte: um ano antes, a Lei da Anistia trouxera de volta ao Brasil muitos intelectuais que, asilados ou exilados, viveram a maior parte dos anos de chumbo no exterior. Retornavam, também, guerrilheiros que haviam sido banidos. Mais: sob as bênçãos da ala progressista da Igreja Católica, que seguia a doutrina da Teologia da Libertação, estourava no ABC paulista um novo sindicalismo a casar reivindicações salariais com palavras de ordem pela democracia. O seu líder máximo chamava-se Luiz Inácio da Silva. Isso mesmo, o Lula, mas nessa época o apelido servia apenas no futebol, no sindicato e no bar – não tinha sido, ainda, incorporado ao nome.
 
Pois bem, o fato é que a conjução de todas essas correntes sociais, compostas por uma alta “intelectualidade orgânica”, por ex-guerrilheiros e ex-presos políticos, pela Igreja e por sindicalistas, formaram a argamassa que trouxe à luz o Partido dos Trabalhadores. Programaticamente, ele nasce seguindo princípios do cientista político italiano Antonio Gramsci, na busca de uma “justa social-democracia” – a estratégia, acreditava-se, era “interpretar a luta política como forma de luta pela hegemonia ideológica”. Podemos concordar ou discordar dessa metodologia, mas é inegável que, ancorado em sérios pensadores e sérios militantes, o PT mostrava uma concreta proposta de melhorar o País. O seu principal lema era um tsunami na velha politicagem: ética! Para se ter uma ideia, a ficha número 1 do partido traz as assinaturas de dois intelectuais eternamente insubstituíveis: Antonio Candido, autor do inigualável clássico “Formação da Literatura Brasileira”, e Sérgio Buarque de Hollanda, que mergulhou na alma dos brasileiros com “Raízes do Brasil”.
 
O presente, muitas vezes, não faz ponte com o passado. É esse o caso. Hoje, Lula está preso devido ao “petrolão”, e o partido… bem, o partido é um arremedo de partido, “página suja da história que precisa ser virada de uma vez por todas”, na opinião do jurista Hélio Bicudo, notável fundador da legenda e que há muito tempo saiu dela. Assim como ele, outros intelectuais, que abandonaram a sigla na medida em que ela traía os seus princípios, olham-na agora, à distância e pelo retrovisor da história, e respiram: ufa, que alívio, olha a lama da qual me livrei. “O partido acabou. Há tempo não me representa mais. Restam nele resquícios religiosos”, diz o economista e jornalista Paulo de Tarso Venceslau, que foi um dos mais respeitados nomes da guerrilha brasileira. “O PT virou seita, não importam os fatos, não importa a verdade”.
 
O que aconteceu com Lula? O que aconteceu com o PT? Claro que toda formação partidária almeja o poder, e o tal poder chegou em 2003 com a posse de Lula na Presidência da República. Abraham Lincoln ensinou: “para descobrir o caráter de um homem, dê poder a ele”. Pois é, o Brasil descobriu o caráter de Lula. Ele mudou? Vai ver que sempre foi assim, e no Lula das greves da Vila Euclides talvez já habitasse o Lula do “mensalão” e do “petrolão”… mas voltemos à Presidência do Brasil.
 
“Atualmente, quando olho a imagem de Lula, fica claro que ele não tem caráter, foi um oportunista como presidente”, afirma Francisco de Oliveira, um dos mais conceituados sociólogos da América Latina. Ele diz que “Lula é mais esperto do que se imagina”. Sem dúvida. Jogando com essa esperteza ele tentou nos iludir falando em coalizões partidárias mas exercendo, na verdade, a cooptação política. Se é fato, como escreveu Marshall Berman, a partir de uma frase de Karl Marx, que “tudo que é sólido desmancha no ar”, o antes sólido PT desmanchou no chão! Coalizões partidárias integram o pacto democrático, mas não têm nada a ver com a cooptação que conduz ao aparelhamento do Estado e à corrupção.
 
Em 2005, a diáspora já em andamento dos condestáveis que fundaram o PT foi acelerada com o escândalo do “mensalão”. “O PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder”, diz Carlos Alberto Libânio Christo, o dominicano Frei Beto. Finalmente, voltemos à frase do início desse texto, e agora sim, exposto o real perfil do PT, ela faz todo sentido. Seu dono foi Plínio de Arruda Sampaio (falecido em 2014), um dos mais éticos homens públicos do Brasil. Fundou o partido e vinha de todas as correntes: mantinha laços com a Igreja Católica, com o movimento sindical, com a luta contra a ditadura e com o estamento intelectual. Quando, ao desfiliar-se, Plínio disse que “o PT é que saiu de mim”, deu uma clara lição: ele permaneceria com a moral e a ética que sempre teve, o PT é que fosse andar. Então é isso, quem é bom não muda! Foi o PT que mudou e perdeu tanta gente de primeira qualidade nesse País.
 
Colaborou Rudolfo Lago
 
 

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