Os programas de pesquisa de Lakatos

14/05/2018 21:16

Teorias Como Estruturas – Resumo Analítico

            As teorias devem ser consideradas um todo estruturado e uma das razões pelas quais é necessário considerar como um todo estruturado origina-se de um estudo da história da ciência. O estudo histórico revela que a evolução e o progresso das principais ciências mostram uma estrutura que não é captada pelos relatos indutivistas e falsificacionista. O desenvolvimento programático da teoria copernicana durante mais de um século já nos forneceu um exemplo. O argumento histórico não é, contudo, a única base para a afirmação de que as teorias constituem todos estruturais de algum tipo. Outro argumento, mais filosófico, está intimamente ligado à dependência que a observação tem da teoria.

Os programas de pesquisa de Lakatos

            Um programa de pesquisa lakatosiano é uma estrutura que fornece orientação para a pesquisa futura de uma forma tanto negativa quanto positiva. O núcleo irredutível de um programa é tornado infalsificável pela “decisão metodológica de seus protagonistas”. Qualquer indagação na correspondência entre um programa de pesquisa articulada e os dados de observação deve ser atribuída não às suposições que constituem seu núcleo irredutível, mas a alguma outra parte da estrutura teórica. O labirinto de suposições que constituem esta outra parte da estrutura é aquilo a que Lakatos se refere como cinturão protetor. Ele consiste não somente nas hipóteses auxiliares explícitas que suplementam o núcleo irredutível, mas também em suposições subjacentes à descrição das condições iniciais e também em proposições de observação. A heurística negativa de um programa é a exigência de que, durante o desenvolvimento do programa, o núcleo irredutível deve permanecer intacto e sem modificações. Qualquer cientista que modifique este núcleo optou por sair deste programa de pesquisa específico. A ênfase de Lakatos no elemento convencional ligado ao trabalho no interior de um programa de pesquisa, na necessidade de que os cientistas se decidam a aceitar seu núcleo, tem muito em comum com a posição de Popper no que diz respeito às proposições de observação. A principal diferença é que, enquanto em Popper as decisões têm a ver apenas com a aceitação de afirmações singulares, em Lakatos o expediente é aumentado de modo a ser aplicável às afirmações universais que compõem o núcleo. No que diz respeito à ênfase de Lakatos sobre as decisões explícitas dos cientistas individuais tem reservas semelhantes às que mencionou em relação a Popper.

            Lakatos ilustrou a noção de heurística positiva com a história do início do desenvolvimento da teoria gravitacional de Newton. Newton chegou primeiro à lei da atração do inverso do quadrado considerando o movimento elíptico de um planeta um ponto ao redor de um Sol como um ponto. Claro estava que,se a teoria gravitacional fosse colocada na prática ao movimento planetário, seria necessário que o programa se desenvolvesse desse modelo idealizado para um modelo mais realista. Mas esse desenvolvimento envolvia a solução de problemas teóricos e não seria realizado sem um considerável trabalho teórico. O próprio Newton, enfrentando um programa definido, isto é, orientado por uma heurística positiva, progrediu de forma considerável.

            O programa implícito na teoria gravitacional de Newton dava uma forte orientação heurística. Lakatos dá um relato bastante detalhado da teoria do átomo de Bohr como outro exemplo convincente. Um traço importante desses exemplos de programas de pesquisa em desenvolvimento é o estágio comparativamente tardio em que o teste de observação torna-se importante. Um cinturão protetor adequado e apropriadamente sofisticado deve ser construído.

            Duas das maneiras em que o mérito de um programa de pesquisa deve ser avaliado surgiram. Em primeiro lugar, um programa de pesquisa deve possuir um grau de coerência que envolva o mapeamento de um programa definido para a pesquisa futura. Segundo, um programa de pesquisa deve levar à descoberta de fenômenos novos, ao menos ocasionalmente. Um programa de pesquisa deve satisfazer às duas condições para se qualificar como programa científico. Lakatos oferece tanto o marxismo quanto a psicologia freudiana como programas que satisfazem ao primeiro critério mas não ao segundo, e a sociologia moderna como um programa que satisfaz talvez ao segundo mas não ao primeiro.

Metodologia em um programa de pesquisa

            No interior do arcabouço de Lakatos deve-se discutir a metodologia científica a partir de dois pontos de vista: o primeiro relativo ao trabalho a ser feito dentro de um único programa de pesquisa, o outro relativo à comparação dos métodos de programas de pesquisa competitivos. O trabalho no interior de um único programa de pesquisa envolve a expansão e a modificação de seu cinturão protetor pela adição e articulação de várias hipóteses. Quais os tipos de adições e modificações que devem ser permitidos por uma boa metodologia científica e quais os tipos que devem ser excluídos como não científicos? A resposta de Lakatos a esta pergunta é franca. Qualquer movimento é permitido, contanto que não seja ad hoc, no sentido discutido na seção 2 do capítulo V. Modificações ao cinturão protetor de um programa de pesquisa devem ser capazes de serem testadas independentemente. Cientistas individuais ou grupos de cientistas são convidados a desenvolver o cinturão protetor de qualquer maneira que quiserem, contanto que seus passos ofereçam a oportunidade de novos testes e, portanto, a possibilidade de novas descobertas. Tomemos, como ilustração, um exemplo do desenvolvimento da teoria de Newton que consideramos várias vezes antes e consideremos a situação com que se confrontaram Leverrier e Adams quando se dedicaram à problemática órbita do planeta Urano.

            Dois tipos de movimentos são excluídos pela metodologia de Lakatos. Hipóteses ad hoc, e hipóteses não independentemente testáveis são excluídas. A importância de uma observação para uma hipótese sendo testada não é tão problemática dentro de um programa de pesquisa, pois o núcleo irredutível e a heurística positiva servem para definir uma linguagem de observação bastante estável.

A comparação de programas de pesquisa

            A comparação de pesquisas rivais é mais problemática. Grosso modo, devem-se julgar os méritos relativos de programas de pesquisa à medida que eles estejam progredindo ou degenerando. Um programa degenerescente cederá espaço para um rival mais progressista, como a astronomia ptolemaica que cedeu espaço para a leitura copernicana. Uma das maiores dificuldades com esse critério para a aceitação ou rejeição de programas de pesquisa está associada ao fator tempo. Quanto tempo deve passar antes que se possa decidir que um programa degenerou seriamente, que ele é incapaz de levar à descoberta de fenômenos novos? A parábola de Lakatos, reproduzida nas páginas 96-97 indica a dificuldade.

            Dentro desse relato, então, não se pode nunca fazer a afirmação sem as restrições de que um programa de pesquisa é “melhor” que um rival. O próprio Lakatos admite que os métodos relativos de dois programas somente podem ser decididos “olhando-se para trás”. Por ter deixado de oferecer um critério bem definido para a rejeição de qualquer programa de pesquisa coerente, ou para escolher entre programas de pesquisas rivais, poder-se-ia desejar dizer, com Feyerabend, que a metodologia de Lakatos é “um ornamento verbal, como um memorial de épocas mais felizes, quando era ainda possível administrar um negócio complexo e frequentemente catastrófico como a ciência, seguindo-se umas poucas regras simples e “racionais”“.

UM RELATO OBJETIVISTA DAS MUDANÇAS TEÓRICAS NA FÍSICA

            As limitações do objetivismo de Lakatos. A metodologia de Lakatos envolve as decisões e as escolhas dos cientistas. Elas estão envolvidas na adoção por parte dos cientistas de um núcleo irredutível e de uma heurística positiva. Segundo Lakatos, o núcleo irredutível do programa de Newton “é” irrefutável pelas decisões metodológicas de seus protagonistas, e um programa de pesquisa tem “um núcleo irredutível aceito convencionalmente (e dessa forma irrefutável por uma decisão provisória). A heurística positiva é uma política de pesquisa ou “plano preconcebido” que os cientistas escolhem adotar. Quais os problemas que os cientistas, trabalhando em programas de pesquisa poderosos, que escolhem racionalmente, são determinados pela heurística positiva do programa”.

            A questão importante aqui é se há ou não intencionalidade nos cientistas estarem cônscios dos preceitos contidos na metodologia de Lakatos. Se não estão, torna-se difícil perceber como a metodologia pode explicar a mudança científica. Simplesmente notar que as mudanças na história da Física ocorreram em conformidade com a metodologia dos programas de pesquisas científicas é não explicar por que isso aconteceu. Por outro lado, se a intenção é a de que os cientistas atuem conscientemente de acordo com a metodologia de Lakatos, existem problemas adicionais. Em primeiro lugar,  é difícil entender como os cientistas, nesses últimos duzentos anos, poderiam ter estado conscientes dos preceitos de uma metodologia que só foi projetada recentemente.

            O próprio Lakatos indicou o abismo que separa a metodologia expressa por Newton e a que ele seguiu na prática. Em segundo lugar, a metodologia de Lakatos não é adequada para ditar as escolhas dos cientistas, como vimos, de acordo com sua própria declaração de que sua metodologia não tinha a intenção de dar conselhos aos cientistas. Em terceiro lugar, qualquer tentativa de relatar uma mudança de teoria que depende de forma crucial das decisões e escolhas conscientes dos cientistas deixa de levar plenamente em conta a “separação entre o conhecimento objetivo....e seus reflexos distorcidos nas mentes individuais”.

            Uma suposição feita por Lakatos, e também por Popper e por Kuhn, é a de que a mudança de teoria deve explicada com referência às decisões e escolhas dos cientistas. Uma vez que Lakatos e Popper deixam de dar preceitos adequados para a escolha de teorias, eles deixam de dar um relato da mudança de teorias, enquanto Kuhn tolera, sem críticas, quaisquer escolhas sancionadas pela comunidade científica.

Oportunidades objetivas

            Ao descrever oportunidades objetivas faz-se uso de material da história, da física e da filosofia que não estava disponível nos períodos históricos sob investigação. As caracterizações adequadas das oportunidades objetivas e dos graus de fertilidade são possíveis somente em retrospecto. O fato de que os cientistas não estão cônscios do grau de fertilidade dos programas em que trabalham – e nem precisam estar – constitui sua força. É exatamente essa característica que torna possível um relato objetivista da mudança de teoria que evita os elementos subjetivistas presentes nos relatos lakatosianos.

Um relato objetivista das mudanças teóricas na física

            Os programas que contêm um núcleo irredutível coerente que oferece oportunidades para progredir se desenvolverão de fato de maneira coerente, uma vez que estas oportunidades sejam aproveitadas. O grau de fertilidade de um programa será aumentado ainda mais se o desenvolvimento conduzir a sucessos de previsão. As linhas de desenvolvimento que destroem a coerência do núcleo e que, consequentemente, não oferecem oportunidades para o desenvolvimento, fracassarão por esse mesmo motivo.

Alguns comentários de advertência

            Chalmers não afirma, por exemplo, que os cientistas devam escolher trabalhar na teoria com o grau mais alto de fertilidade, especialmente tendo em vista o fato de que um cientista típico não estará numa posição boa para apreciar todas as oportunidades de desenvolvimento oferecidas por um programa ou teoria. O relato dele da mudança supõe que, caso exista uma oportunidade para desenvolvimento, algum cientista ou grupo de cientistas eventualmente se aproveitarão dela, mas não supõe que qualquer cientista ou grupo de cientistas específico estejam cônscios de todas as oportunidades de desenvolvimento. Seu relato separa o problema da mudança da teoria do problema de escolha da teoria.

            Não há nenhuma garantia absoluta de que a suposição sociológica, de que depende o relato objetivista da mudança de teoria na física, será sempre preenchida. Não foi preenchida na Europa Medieval e há fortes motivos para crer que esteja sendo solapada na sociedade contemporânea. Provável que a maneira como as dotações para pesquisas é influenciada pelos governos e monopólios industriais na sociedade contemporânea seja tal que não se possam aproveitar algumas oportunidades objetivas, de modo que o progresso da física esteja ficando controlado cada vez mais por fatores externos à física. A suposição sociológica não será nunca preenchida de modo completo. A estrutura do progresso da física a prazo muito curto envolverá inevitavelmente coisas como a personalidade dos cientistas, a medida e a maneira como eles se comunicam. A longo prazo, todavia, se houver cientistas com as habilidades e os recursos disponíveis para aproveitarem-se das oportunidades para desenvolvimentos existentes, Chalmers afirma que o progresso da física será explicável em termos do seu relato de mudança de teoria. Para Chalmers a escala temporal apropriada para o seu relato objetivista da mudança de teoria e que distingue o prazo curto do longo é aquela em que afirmações como a “teoria de Einstein substitui a de Lorentz” fazem sentido.

CHALMERS, Alan F., 1939 - O que é Ciência afinal? A. F. Chalmers ; tradução Raul Fiker. São Paulo: Brasiliense, 1993.

--------------------------------------------------------------------------------------------

Quem foi Lakatos?

Imre Lakatos (1922-1974) foi um filósofo da matemática e da ciência nascido na Hungria que se tornou conhecido na Grã-Bretanha, tendo fugido de sua terra natal em 1956, quando a Revolta Húngara foi reprimida pelos tanques soviéticos. Ele era notável por sua filosofia anti-formalista da matemática (onde “formalismo” não é apenas a filosofia de Hilbert e seus seguidores, mas também compreende o logicismo e o intuicionismo) e por sua “Metodologia de Programas de Pesquisa Científica” ou MSRP, uma revisão radical de O Critério de Demarcação de Popper entre ciência e não-ciência que deu origem a uma nova teoria da racionalidade científica.

Embora ele viveu e trabalhou em Londres, subindo para o cargo de professor de lógica na London School of Economics (LSE), Lakatos nunca se tornou um cidadão britânico, mas morreu um apátrida. Apesar do leque repleto de estrelas de senhores acadêmicos e cavaleiros que estavam dispostos a testemunhar em seu favor, nem o MI5 nem o Ramo Especial pareciam ter confiado nele, e ninguém menos que Roy Jenkins, o então Ministro do Interior, assinou o contrato. recusa em naturalizá-lo. (Veja Bandy 2009: cap. 16, que inclui as transcrições de interrogações sucessivas.)

No entanto, a influência de Lakatos, particularmente na filosofia da ciência, tem sido imensa. De acordo com o Google Scholar, em 25 de janeiro de 2015, ou seja, apenas vinte e cinco dias para o novo ano, trinta e três artigos foram publicados citando Lakatos naquele ano, uma taxa de citações de mais de um papel por dia. Textos introdutórios sobre a Filosofia da Ciência tipicamente incluem seções substanciais sobre Lakatos, algumas admirando, algumas críticas, e muitas uma mistura das duas (veja por exemplo Chalmers 2013 e Godfrey-Smith 2003). O prêmio principal para o melhor livro da Filosofia da Ciência (financiado pela fundação de um discípulo rico e distinto academicamente, Spiro Latsis) é nomeado em sua homenagem. Além disso, Lakatos é um desses filósofos cuja influência se estende muito além dos limites da filosofia acadêmica. Dos trinta e três artigos citando Lakatos publicados nos primeiros vinte e cinco dias de 2015, no máximo dez se qualificam como filosofia direta. O restante é dedicado a tópicos como teoria educacional, relações internacionais, pesquisa de políticas públicas (com especial referência ao desenvolvimento de tecnologia), informática, ciência do design, estudos religiosos, psicologia clínica, economia social, economia política, matemática, história da ciência. física e sociologia da família. Assim, Imre Lakatos era muito mais do que um filósofo dos filósofos.

A carreira húngara de Lakatos tornou-se um grande problema na literatura crítica. Isso se deve em parte a fatos perturbadores sobre o início da vida de Lakatos, que só vieram à luz no Ocidente desde sua morte e em parte por causa de uma disputa entre os intérpretes “húngaro” e “inglês” do pensamento de Lakatos, entre os escritores. todos eles magiares) que levam os últimos Lakatos a serem muito mais um hegeliano (e talvez muito mais discípulo de György Lukács) do que ele gostava de deixar transparecer, e aqueles que consideram seu hegelianismo um caso cada vez mais residual, não muito mais, no final, do que o hábito de “coquetear” com expressões hegelianas (Marx, Capital: 103). Assim como há marxistas analíticos que pensam que o pensamento de Marx pode ser racionalmente reconstruído sem a coqueluche hegeliana e os marxistas dialéticos que pensam que isso não pode acontecer, também há lakatosianos analíticos que pensam que o pensamento de Lakatos pode ser reconstruído em grande parte sem a coqueteria hegeliana e dialítica dos lakatosianos.

As grandes ideias de Lakatos, as duas contribuições que constituem suas principais reivindicações para a fama de filósofo, antes de prosseguir (em terceiro) para uma discussão mais detalhada de alguns de seus principais artigos. Concluímos com uma seção sobre o Debate Feyerabend / Lakatos. Lakatos era um pensador provocativo e combativo, e falsifica seu pensamento para apresentá-lo como menos controverso (e talvez menos escandaloso) do que realmente era.

-------------------------------------------------------------------------------------------

Um conto de dois lakatoses

Imre Lakatos era um amigo caloroso e espirituoso e um professor carismático e inspirador (ver Feyerabend, 1975a). Ele também era um falibilista, e um inimigo declarado de elitismo e autoritarismo, tendo uma visão obscura do que ele descreveu como a "polícia do pensamento" wittgensteiniana (devido à tendência orwelliana por parte de alguns wittgensteinianos de suprimir a dissidência constringindo a língua, descartando as coisas que eles não gostavam como inerentemente sem sentido) (UT: 225 e 228-36). Na fase posterior (e britânica) de sua carreira, ele era um dedicado adversário do marxismo que desempenhou um papel proeminente na oposição aos radicais estudantis socialistas na LSE em 1968, argumentando apaixonadamente contra a politização da erudição (LTD; Congden 2002).

 


Crie um site com

  • Totalmente GRÁTIS
  • Centenas de templates
  • Todo em português

Este site foi criado com Webnode. Crie um grátis para você também!