Para conter abusos Austrália propõe fim do celibato católico

16/12/2017 11:46
COMISSÃO AUSTRALIANA PROPÕE FIM DO CELIBATO PARA CONTER ABUSOS SEXUAIS NA IGREJA
Por O Globo
 
Comissão criada há cinco anos para investigar casos de abusos sexuais em instituições religiosas na Austrália entregou o relatório final nesta sexta-feira - Jeremy Piper / AP
 
SYDNEY - Uma comissão oficial criada na Austrália para investigar casos de abusos sexuais na Austrália apresentou nesta sexta-feira seu relatório final, após cinco anos de investigações. O documento afirma que as instituições religiosas "falharam" na proteção das crianças, já que "dezenas de milhares" foram abusadas sexualmente: "Nós nunca saberemos o número verdadeiro". Desde 2012, a comissão relatou para as autoridades 2.575 casos, sendo que 230 deram início a processos judiciais. Entre as recomendações apresentadas, os comissários propõem alterações nas leis canônicas, como o fim do celibato e da confidencialidade das confissões, que foram prontamente negadas pelas lideranças católicas do país.
 
De acordo com o relatório, as investigações encontraram "fracassos múltiplos e persistentes das instituições para garantirem a segurança das crianças, as culturas do segredo e do acobertamento, e os efeitos devastadores que o abuso sexual infantil provocam na vida de uma pessoa". Ao longo dos trabalhos, os investigadores realizaram 8.013 sessões privadas com possíveis vítimas, mas o número real é muito maior:
 
"Dezenas de milhares de crianças foram abusadas sexualmente em muitas instituições australianas", diz o relatório. "Nós nunca saberemos o número verdadeiro. Não é o caso de 'algumas maçãs podres'".
 
O relatório com 21 volumes oferece recomendações ao governo e, sobretudo, à Igreja. A comissão pede que a Conferência dos Bispos Católicos da Austrália peça ao Vaticano para reformar a lei canônica, removendo regras que "previnam, prejudiquem ou desencorajem" que bispos ou outras autoridades religiosas denunciem casos de abusos.
 
"Nós recomendamos que a lei canônica receba uma emenda para que o 'segredo pontifício' não se aplique em nenhum aspecto a alegações ou processos disciplinares relacionados ao abuso sexual infantil", propõe o relatório, já que foram revelados muitos casos em que vítimas ou abusadores usaram o confessionário, mas o segredo foi mantido por causa das regras da Igreja Católica, permitindo que os abusos continuassem sem punição aos criminosos.
 
CELIBATO AUMENTA RISCOS
 
Outra recomendação polêmica é para o Vaticano repensar suas regras de celibato. Os comissários apontaram que, apesar de o celibato dos clérigos não ser uma causa direta dos abusos, ele aumentava os riscos quando clérigos e outras autoridades religiosas masculinas tinham acesso privilegiado a crianças.
 
Prontamente, Denis Hart, arcebispo da Arquidiocese de Melbourne, respondeu aos comissários, defendendo que o selo de confidencialidade é "inviolável" e não pode ser quebrado. Hart alegou que caso alguém confessasse a ele um abuso, tentaria encorajar o abusados a admitir seus crimes fora do ambiente confessional, para que o caso pudesse ser relatado para a polícia.
 
- Eu sentiria terrivelmente o conflito, e tentaria ainda mais que essa pessoa se entregasse fora do confessionário, mas eu não posso quebrar o selo - afirmou o religioso, ao "Guardian". - A pena para qualquer padre que quebre o selo é a excomunhão.
 
Sobre o celibato, Hart afirmou ver "valor real" na regra, que não deseja que seja revista, e sobre os abusos, apenas comentou que "levou tempo para os bispos perceberem a seriedade da questão". Já o arcebispo de Sydney, Anthony Fisher, afirmou que precisará de tempo para "digerir" o relatório e prometeu ação.
 
- Não ficará jogado na prateleira - prometeu Fisher. - Eu vou estudar as descobertas e recomendações cuidadosamente, e então fornecer uma resposta detalhada à medida que discernimos, com o resto da comunidade, o melhor caminho a seguir.
 
Contudo, assim como Hart, Fisher descartou qualquer mudança no segredo confessional e no celibato.
 
- Apesar de ainda termos que estudar o que a comissão tem a dizer sobre isso, eu acho que todos compreendem que esta prática católica e ortodoxa da confissão é sempre confidencial. Qualquer proposta para parar a prática da confissão na Austrália seria um verdadeiro dano para todos os cristãos católicos e ortodoxos - avaliou o religioso, completando sobre o celibato. - Nós sabemos muito bem que instituições que têm o celibato e instituições que não têm enfrentam ambas esses problemas. Nós sabemos muito bem que isso acontece em famílias onde o celibato certamente não é observado.
 
"TRAGÉDIA NACIONAL"
Para o primeiro-ministro da Austrália, Malcom Turnbull, o relatório "expôs uma tragédia nacional", então o governo deve analisar as recomendações e fornecer todas as respostas no ano que vem.
 
A comissão é a maior já criada em qualquer país para apurar abusos sexuais de crianças dentro de instituições religiosas. A Igreja Católica não foi a única investigada, mas ela responde por 61,8% das cerca de 2,5 mil vítimas que denunciaram seus agressores. Para os comissários, a posição de confiança dos religiosos acabava facilitando os abusos, e o encobertamento dentro das instituições permitia que os abusadores continuassem fazendo mais vítimas.
 
"Em muitas instituições religiosas, o poder concedido às pessoas no ministério religioso e a confiança dos pais, combinados com aspectos da cultura, práticas e atitudes institucionais criam riscos para as crianças", aponta o relatório. "Os abusadores muitas vezes continuavam a ter acesso a crianças mesmo quando líderes religiosos sabiam que representavam perigo".
 
As investigações indicam que quando um abusador era identificado, normalmente ele era apenas transferido para outras praças, mas raramente denunciado para a polícia. E isso demonstra uma falha nas instituições em perceber que o abuso sexual de crianças é um crime, com impactos profundos nas vidas das vítimas, e não apenas uma falha moral que pode ser corrigida com penitência. Por isso, os comissários sugerem que a Conferência de Bispos realize uma revisão nacional na governança e nas estruturas de gerenciamento de todas as dioceses, sobretudo em relação à transparência.
 
A comissão também recomenda que os critérios de seleção de bispos e padres sejam publicados, incluindo suas credenciais em relação à promoção da segurança das crianças. Os comissários pedem ainda que as igrejas estabeleçam "um processo transparente na indicação de bispos que inclua a participação direta de leigos".
 
 

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