POLÍTICA - A esquerda vai se tornar mais crítica?

17/02/2018 18:05
POLÍTICA - A esquerda vai se tornar mais crítica?
Diante dos candidatos que se apresentam, não há razões para muito otimismo de que isso ocorrerá nas próximas eleições presidenciais
 
RUY FAUSTO - Revista Época - Site
 
Uma política de esquerda crítica e independente envolve três pontos principais: a crítica do capitalismo, a ruptura radical com todos os totalitarismos e o não compromisso com populismos e patrimonialismos. Quais são, porém, as possibilidades reais de uma nova esquerda com esse programa no Brasil, neste período que se abre com a condenação de Lula e a perspectiva das eleições presidenciais? Considerando as duas hipóteses – a de que Lula seja candidato e a de que ele fique fora do páreo –, essa esquerda crítica e independente pode ser representada pelos prováveis candidatos de esquerda nas próximas eleições presidenciais? (Incluo Marina Silva, candidata da Rede, mas deixo de lado Manuela d’Ávila, filiada ao PCdoB, um partido marxista-leninista, cuja trajetória política pouco conheço.)
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A direção do PT jura se empenhar “até o fim” na candidatura de Lula. De certo modo, isso é justificável, mas esse esforço dificilmente terá sucesso. O mais provável é que o PT dê com os burros n’água. (É difícil afirmar a inocência “geral” de Lula, mas é difícil também aceitar seu encarceramento, dada a assimetria evidente dos processos, conforme se trate de réus importantes da esquerda ou da direita.) Porém, suponhamos que Lula possa se candidatar e se eleja. Nas condições atuais, poderia fazer uma nova Presidência Lula? Sua governança anterior se caracterizou por uma dupla política. De um lado, buscou satisfazer em certa medida as necessidades dos mais pobres. De outro, tentou assegurar a neutralidade e, em alguns casos, até o apoio das camadas mais privilegiadas. Esse jogo duplo se fazia graças a duas condições diferentes. A primeira era não levar muito longe o programa de reformas. A segunda era de caráter objetivo: esse jogo só podia ser implementado numa situação favorável à economia brasileira. Essa última condição caiu, como se sabe, com a deterioração considerável do mercado de commodities. Quanto à primeira, seria difícil nas circunstâncias atuais (penso principalmente no clima político) que as classes dominantes tolerassem um governo aberto às necessidades dos mais pobres, mesmo no quadro de um programa moderado de reformas. Ocorreu uma ruptura radical entre as forças conservadoras e a figura de Lula. Mas as dificuldades de um Lula 3 viriam também pelo outro lado. Certo, ele continuaria tendo apoio popular, mas o clamor das forças de esquerda que pedem reformas mais profundas (a começar pela fiscal) seria certamente muito mais poderoso do que nos primeiros mandatos. Lula, eleito pela terceira vez, teria assim problemas com a direita e com a esquerda. Nesse contexto complicado, dificilmente se abriria um caminho favorável ao avanço de uma esquerda crítica.
NO VÁCUO Ciro, Marina e Boulos são candidatos ao lugar de Lula, mas nenhum preenche os requisitos de uma esquerda crítica (Foto: Diego Padgurschi/Folhapress, Andre Dusek/Estadão Conteúdo e Sakl;Zanone Fraissat/Folhapress)
NO VÁCUO
Ciro, Marina e Boulos são candidatos ao lugar de Lula, mas nenhum preenche os requisitos de uma esquerda crítica (Foto: Diego Padgurschi/Folhapress, Andre Dusek/Estadão Conteúdo e Sakl;Zanone Fraissat/Folhapress)
NO VÁCUO - Ciro, Marina e Boulos são candidatos ao lugar de Lula, mas nenhum preenche os requisitos de uma esquerda crítica (Foto: Diego Padgurschi/Folhapress, Andre Dusek/Estadão Conteúdo e Sakl;Zanone Fraissat/Folhapress)
 
Ciro Gomes revela qualidades em seus embates com a direita. Mas é um político tradicional, que já passou por uma porção de partidos e cujo programa “progressista” é infenso às exigências de ordem ecológica. Difícil pensar na renovação das esquerdas, no quadro de uma campanha em favor de Ciro. Marina Silva ficou marginalizada junto às esquerdas por dar apoio ao candidato Aécio Neves e por sua posição pró-impeachment. Marina não é corrupta, é democrática, tem profunda consciência dos problemas do meio ambiente e das populações indígenas. Mas vem abraçando um programa liberal para a economia, além de defender posições ambíguas em questões como o aborto.
Guilherme Boulos é uma figura singular. De formação universitária, não ligado a partidos, dispôs-se a “ir ao povo” e veio a ser o líder do MTST, o movimento dos sem-teto. Boulos acha que o processo atual deve conduzir a um “enfrentamento”. Eu também acho que a direita, se ela se sentir ameaçada, pode acabar virando brutalmente a mesa. Boulos crê que é necessário introduzir mudanças importantes no sistema político. Estou de acordo. Ele – assim como o PSOL, o partido que provavelmente lançará sua candidatura – também tem o mérito de não poupar críticas ao pior da política petista. O líder do MTST se mantém fiel, porém, a um ideário bolivariano. Ora, a questão do populismo latino-americano e, em particular, a atitude em relação ao governo venezuelano são cruciais na definição de uma postura crítica para a esquerda. Os populismos não vão apenas contra a “democracia liberal”. Eles vão contra a democracia tout court (expressão francesa que significa “pura e simplesmente”). Assim, é difícil, nas condições atuais, assinar embaixo da candidatura de Boulos e, também, em boa parte da política do PSOL.
 
Quanto aos prováveis nomes de dentro do PT, caso Lula não seja candidato, Jaques Wagner é um típico representante da máquina partidária e não nos levaria para além de onde estamos. Restaria Fernando Haddad. Político ligado ao PT, mas não a sua máquina. Haddad tem a vantagem de não ser nem populista nem patrimonialista. Sua gestão no Ministério da Educação foi bastante boa, e na prefeitura de São Paulo fez muita coisa positiva, apesar da blitz de ódio desencadeada contra ele pela mídia (e pelo Judiciário). Mas o futuro político de Haddad é incerto.
PLANO B  Wagner e Haddad são opções do PT. Haddad não é populista, mas não tem o apoio da máquina partidária, ao contrário de Wagner  (Foto: Sakl;Pedro Ladeira/Folhapress e José Carlos Daves/Futura Press)
PLANO B - Wagner e Haddad são opções do PT. Haddad não é populista, mas não tem o apoio da máquina partidária, ao contrário de Wagner (Foto: Sakl;Pedro Ladeira/Folhapress e José Carlos Daves/Futura Press)
 
Esse balanço, cujo resultado não dá lugar a muito otimismo, fica muito terra a terra, se não levamos em conta a situação da esquerda em escala mundial. A esquerda exibe vários focos de resistência a uma ofensiva internacional da direita. Entretanto, em vários desses casos (o de Jean-Luc Mélenchon, na França, o de parte do Podemos, na Espanha, e o de Jeremy
 
Corbyn, no Reino Unido) é fácil mostrar que os líderes e os movimentos da esquerda mundial, hoje em evidência, mostram as mesmas debilidades do cenário nacional. Assim, o problema da esquerda está longe de ser apenas brasileiro. O exemplo mais característico talvez seja o de Jean-Luc Mélenchon, que não poupa elogios ao castrismo, a Maduro e, às vezes, até a Putin. Há exceções: Bernie Sanders, os neossocialistas americanos e talvez um setor do Podemos.
 
A questão do populismo latino-americano é crucial na definição de uma postura crítica para a esquerda
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A esquerda mundial e a brasileira têm de efetuar uma verdadeira mutação, que garanta uma posição de hegemonia no seio das classes médias. A crítica do stalinismo foi uma grande virada, mas ela deveria ser apenas um primeiro passo na direção de um amplo acerto de contas também com o leninismo, que tem sua responsabilidade na catástrofe que se conhece.
 
Quanto às eleições presidenciais brasileiras, creio que um trabalho de discussão com o PSOL e com seu provável candidato, no sentido de incitá-los a levantar a bandeira de uma esquerda rigorosamente democrática, ou então uma mobilização ampla, para além do PT, em torno de uma candidatura do tipo da de Haddad – ou as duas coisas –, com um esforço geral de divulgação das suas próprias ideias, são os caminhos que se oferecem, de imediato, a uma esquerda crítica e independente.
 

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