Servir de pretexto à banalização do contexto!

18/02/2018 20:57
CATOLICISMO - O sexo e a cidade
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Por Francisco Rodrigues, s.j.
 
Quem diria que no comunicado de D. Manuel Clemente, suficientemente grande e abrangente, fosse microscopicamente procurado o sexo do corpo do texto para servir de pretexto à banalização do contexto!
 
Nas últimas semanas o sexo dos recasados tem andado efervescente na comunicação social. Fico com a ideia de que o assunto não tem sido tratado com seriedade, leitura, reflexão e a profundidade que merecia.
 
O Sr. Cardeal-Patriarca emitiu um texto, dentro de um contexto mais alargado, o qual, na verdade, não é original nem diz nada de novo. O bispo da diocese de Lisboa procurou dar resposta ao que a diocese espera do seu Pastor. Na fidelidade ao magistério da Igreja, e no desejo de conciliar as diversas sensibilidades sobre este tema, abre portas, apela à reflexão, ao discernimento e ao acompanhamento. Já assim tinha feito a diocese de Buenos Aires. Assim fizeram também a diocese de Braga e outras dioceses portuguesas.
 
Quando eu era estudante, em Roma, perguntei a um eminente professor se partilhava a opinião de que a Igreja hipervaloriza a questão do sexo. Tive como resposta mais ou menos o seguinte: o sexo, dizia o professor, para bem ou para mal, tem uma força vital na vida das pessoas. A Igreja está consciente disso. Todos devemos estar conscientes disso, a começar pelos educadores, para nos podermos ajudar uns aos outros a educar a dimensão afetivo sexual de um modo integrado, sadio e responsável.
 
Sou sacerdote desde há catorze anos. Nunca procurei nenhuma pessoa, nem casais (independentemente de estarem casados pelo sacramento do matrimónio, ou simplesmente casados pelo civil) para lhes dizer como devem viver a sua vida afetivo-sexual, social e familiar. Se vêm ter comigo (ou conosco padres), esperam uma orientação, luzes, ajuda em vista ao discernimento. Sucede o mesmo com qualquer médico ou psicólogo. Estes, quando são procurados, poderão desejar recomendar o ideal, mas confrontam-se com o real, isto é, com pessoas concretas. É disto que falamos. Apontar para o ideal e aceitar o real, transformando-o no que é possível e ao alcance. Sendo que, a resposta última que a cada um diz respeito, há-de ser tomada e assumida por cada um(a) como pessoa, ou casal.  Só essas decisões responsabilizam.
 
Nos últimos dias, em que tanto se tem falado deste tema, tem sido por alguns referido que a Igreja nem sempre tem sabido lidar com o assunto ‘sexo’. Pergunto-me se não é a sociedade como um todo que não sabe lidar com esta importante e essencial dimensão da pessoa humana, a sexualidade! Quem visita Pompeia pode verificar que, antes do sinistro natural, na fronte de muitos dos seus habitantes eram desenhados “órgãos sexuais”. Isso simbolizava que todo o seu pensar e agir era marcado pela perspetiva da genitalidade erótica, superficial e banalizada.
 
Paralelamente, deparamo-nos, hoje, com sinais de manifesta decadência na área dos comportamentos sexuais. Não é só a Igreja que tem consciência da incrível força que possui a dimensão psíquico sexual como fonte geradora de equilíbrio ou desequilíbrio humano.  A sociedade como tal, tem semelhante consciência desta dimensão. O problema é que tende a absolutizá-la.  O mundo afetivo sexual não é uma coisa no meio de tantas outras.  Aliás, não é uma “coisa”. Muitos setores da sociedade ou não percebem isto, ou não lhes convém perceber! Os efeitos de uma sociedade erotizada e obcecada com a sexualidade (como se não houvesse vida aquém e para além do sexo) não tem nada a ver com a beleza e o potencial de equilíbrio resultante desta força vital da natureza humana. Por isto, a Igreja, porque chamada a contribuir para solucionar problemas, também se deve pronunciar e apontar metas.
 
Quem diria que no comunicado de D. Manuel Clemente, suficientemente grande e abrangente, fosse microscopicamente procurado o sexo do corpo do texto para servir de pretexto à banalização do contexto!
 
A dimensão afetivo-sexual é, pela sua natureza, um assunto demasiado importante para ser banalizado. É um assunto incontornável para todos. A Igreja não o ignora, embora talvez nem sempre tenha sabido como lidar com ele. A sociedade em que vivemos, em nome de uma liberdade que verdadeiramente “livre” parece ter pouco, tem dado sinais preocupantes no modo como (des)educa para a sexualidade livre (ou libertina) (des)integrada e (irres)responsável. Esta obsessão na busca do sexo do texto parece estar bem presente em muitos dos jornalistas da nossa praça, os quais, ou andam obcecados ou querem clientes para as notícias a qualquer custo. Por exemplo, um dos semanários do nosso país publicou uma entrevista dada por uma figura pública (Adolfo Mesquita Nunes). Na referida entrevista, foram muitos e interessantes os temas tratados. No entanto, qual foi o tópico apresentado na manchete do jornal? Sexo. Antes, a sua orientação sexual. Obsessivo.  Porquê e para quê? Não foi a Igreja institucional que entrevistou e escolheu a manchete.
 
A Igreja deverá repensar, como muito bem faz o Papa Francisco, o estilo e linguagem que usa para tratar este tema, tão importante e decisivo na vida das pessoas. No entanto, são muitos os sectores da sociedade contemporânea que, na verdade, não levam a sério este tema, e por isso, não o tem resolvido. É pena. Poderiam ser matérias interessantes para bons debates, reflexão e melhor proveito pessoal e social.
 
 

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